Pular para o conteúdo principal

Rectal Care

Como a Dra. Angelita Habr-Gama ajudou a transformar a coloproctologia

Como a Dra. Angelita Habr-Gama ajudou a transformar a coloproctologia

Dra. Angelita Habr-Gama é sinônimo de inovação e excelência médica!

Algumas pessoas constroem uma carreira dentro dos limites conhecidos de sua profissão. Outras observam esses limites, fazem novas perguntas e ajudam a transformar o modo como toda uma especialidade pensa e trabalha.

A Dra. Angelita Habr-Gama fez parte desse segundo grupo.

Ao longo de décadas dedicadas à cirurgia, ao ensino e à pesquisa, ela contribuiu para o desenvolvimento da coloproctologia no Brasil e ajudou a projetar a medicina brasileira internacionalmente. 

Sua trajetória foi marcada por diferentes pioneirismos, mas uma de suas contribuições mais conhecidas nasceu de algo essencial à prática médica: a capacidade de observar atentamente o paciente.

Ao acompanhar pessoas com câncer de reto que apresentavam uma resposta completa ao tratamento realizado antes da cirurgia, a Dra. Angelita percebeu que nem todas talvez precisassem seguir imediatamente o mesmo caminho cirúrgico.

Essa observação ajudaria a mudar a maneira como médicos de diferentes países discutem o tratamento do câncer de reto.

Dra. Angelita Habr-Gama: uma médica que não aceitava respostas prontas

Quando a Dra. Angelita Habr-Gama iniciou sua formação, a presença feminina na cirurgia ainda era vista com resistência. 

Ela se tornou a primeira mulher residente em cirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e, posteriormente, a primeira mulher a ocupar uma posição de professora titular em uma especialidade cirúrgica na instituição.

Essas conquistas ajudam a dimensionar sua coragem, mas não explicam sozinhas o alcance de seu trabalho.

Sua trajetória foi construída pela combinação entre prática clínica, investigação científica e formação acadêmica. 

A Dra. Angelita não se limitava a aplicar o conhecimento disponível. Ela procurava compreender melhor as doenças do cólon, do reto e do ânus, questionava condutas estabelecidas e buscava maneiras de aprimorar o tratamento oferecido aos pacientes.

Formada pela Faculdade de Medicina da USP em 1957, especializou-se em cirurgia geral e cirurgia do aparelho digestivo. Em 1961, aprofundou sua formação em doenças do cólon, reto e ânus no St Mark’s Hospital, em Londres, uma das principais instituições mundiais da área.

Ao retornar ao Brasil, participou ativamente da consolidação da coloproctologia como campo de ensino, assistência e pesquisa. 

Na Faculdade de Medicina da USP, ajudou a estruturar a especialidade, criou a Disciplina de Coloproctologia e formou profissionais que dariam continuidade ao desenvolvimento da área.

Também esteve à frente da criação, em 1974, de um serviço universitário de colonoscopia que se tornou referência para a difusão do exame no país.

Seu trabalho não avançava por uma única frente. Era preciso cuidar, pesquisar, ensinar e criar estruturas capazes de fazer o conhecimento chegar a mais pessoas.

A consolidação da coloproctologia no Brasil

Atualmente, a coloproctologia é reconhecida como a especialidade dedicada ao diagnóstico e ao tratamento das doenças do intestino grosso, do reto e do ânus. 

Essa definição, porém, não traduz toda a evolução necessária para que a área alcançasse o nível de desenvolvimento que possui hoje.

Era preciso formar especialistas, estruturar serviços, produzir pesquisas, promover congressos, ampliar o acesso aos exames e conscientizar a população sobre doenças que, durante muito tempo, foram cercadas por vergonha, desconhecimento e diagnóstico tardio.

A Dra. Angelita participou de diferentes etapas desse processo.

Na universidade, contribuiu para transformar a coloproctologia em uma área organizada de formação e investigação. 

Na prática médica, participou do aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas e da incorporação de novos métodos diagnósticos. 

Já na produção científica, publicou trabalhos que ultrapassaram as fronteiras brasileiras. Na prevenção, ajudou a ampliar o debate sobre o câncer colorretal e a importância do diagnóstico precoce.

Seu entendimento da especialidade não se restringia à realização de uma cirurgia. Afinal, o tratamento deveria considerar a doença, as características do tumor, a resposta terapêutica e a vida que o paciente continuaria vivendo depois daquela intervenção.

Portanto, foi justamente esse olhar que ajudou a abrir uma nova discussão sobre o câncer de reto.

Quando observar também se tornou uma possibilidade de tratamento

Durante muitos anos, a cirurgia foi considerada uma etapa praticamente inevitável no tratamento do câncer de reto localizado.

Mesmo quando a quimioterapia e a radioterapia realizadas antes do procedimento provocavam uma resposta expressiva, o caminho habitual ainda era operar. A cirurgia permanecia importante para retirar a área inicialmente afetada e avaliar se havia doença residual.

Ao acompanhar esses pacientes, a equipe liderada pela Dra. Angelita começou a observar que algumas pessoas apresentavam o que se chama de resposta clínica completa.

Isso significa que, após o tratamento neoadjuvante, as avaliações clínicas, endoscópicas e de imagem não encontravam sinais detectáveis do tumor.

Diante desses casos, surgiu uma pergunta que mudaria o debate internacional:

Se não havia mais evidência clínica da doença, todos os pacientes precisariam ser operados imediatamente?

A partir dessa inquietação, a Dra. Angelita e sua equipe passaram a estudar uma estratégia de acompanhamento rigoroso sem cirurgia imediata, posteriormente conhecida como Watch and Wait, expressão que pode ser traduzida como observar e acompanhar.

A proposta encontrou resistência inicialmente. Afinal, questionava uma conduta já consolidada e lidava com uma doença que exige grande responsabilidade nas decisões terapêuticas.

Mas a ciência também avança quando observações clínicas são investigadas com método, acompanhamento e disposição para rever certezas.

O que é a estratégia Watch and Wait?

O Watch and Wait é uma possibilidade considerada para pacientes cuidadosamente selecionados que apresentam resposta clínica completa após o tratamento neoadjuvante do câncer de reto.

Em vez de realizar a cirurgia imediatamente, a equipe médica inicia um programa de vigilância intensiva, com avaliações periódicas capazes de identificar precocemente qualquer sinal de retorno ou crescimento local da doença.

Esse acompanhamento pode envolver exames clínicos, toque retal, endoscopia, ressonância magnética, exames laboratoriais e outros recursos definidos pela equipe responsável.

Portanto, Watch and Wait não significa simplesmente “esperar” ou interromper o cuidado.

Pelo contrário: a estratégia depende de critérios rigorosos, acompanhamento frequente, profissionais experientes e comprometimento do paciente com todas as etapas da vigilância.

Também não é uma abordagem indicada para todas as pessoas com câncer de reto. A decisão deve ser individualizada e discutida por uma equipe multidisciplinar, considerando a localização e as características do tumor, os tratamentos já realizados, a resposta obtida, as condições clínicas do paciente e a possibilidade de manter um acompanhamento rigoroso.

A grande transformação proposta pela Dra. Angelita não foi substituir uma regra por outra. Foi mostrar que alguns pacientes poderiam ter uma alternativa.

Preservar o órgão também é olhar para a vida depois do tratamento

As cirurgias para câncer de reto podem ser fundamentais para o controle da doença e continuam tendo um papel indispensável em inúmeros casos. Dependendo da localização e da extensão do tumor, porém, o procedimento pode provocar mudanças importantes na rotina do paciente.

Algumas pessoas podem precisar de uma ostomia temporária ou definitiva. Outras podem apresentar alterações no funcionamento intestinal, urinário ou sexual. Mesmo quando a cirurgia alcança seu objetivo oncológico, a recuperação pode envolver desafios físicos e emocionais.

Ao investigar a possibilidade de preservar o reto em pacientes selecionados, a Dra. Angelita ajudou a colocar outra pergunta no centro da decisão médica:

É possível tratar o câncer com segurança e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto do tratamento sobre a qualidade de vida?

Essa pergunta parece natural hoje, mas representou uma mudança importante de perspectiva.

O objetivo da oncologia não deixou de ser o controle da doença. O que mudou foi a compreensão de que, quando existem alternativas seguras e cientificamente sustentadas, preservar o órgão e suas funções também pode fazer parte do cuidado.

Esse pensamento influenciou pesquisas em diferentes países e ajudou a ampliar o interesse mundial por estratégias de preservação de órgãos.

Da observação brasileira para o debate internacional

Os primeiros resultados apresentados pela equipe brasileira despertaram atenção, dúvidas e novas investigações.

Com o passar dos anos, outros centros médicos começaram a estudar a abordagem, organizar programas de acompanhamento e produzir dados sobre seus resultados. A estratégia passou a integrar congressos, artigos científicos, pesquisas multicêntricas e discussões sobre o futuro do tratamento do câncer de reto.

Estudos posteriores avaliaram temas como os critérios necessários para identificar uma resposta clínica completa, a frequência dos exames de vigilância, o risco de re-crescimento local da doença e as possibilidades de cirurgia de resgate quando necessária.

A participação da Dra. Angelita continuou ativa nesse processo. Mesmo depois de décadas de carreira, ela permaneceu envolvida na produção científica e em estudos voltados ao aprimoramento do tratamento neoadjuvante e das estratégias de preservação do reto.

O reconhecimento internacional veio como consequência de uma contribuição que já havia alcançado médicos e pacientes em diferentes partes do mundo.

Em 2023, ela se tornou a primeira mulher e a primeira profissional da América Latina a receber a Medalha Bigelow, concedida pela Sociedade de Cirurgia de Boston a profissionais responsáveis por contribuições excepcionais ao progresso científico e ao ensino cirúrgico.

A instituição destacou justamente o caráter inovador das pesquisas realizadas pela Dra. Angelita e por sua equipe no tratamento do câncer de reto sem cirurgia imediata em pacientes selecionados.

Mais do que uma homenagem individual, a premiação reconhecia a relevância de uma ideia desenvolvida no Brasil e capaz de influenciar a medicina mundial.

Dra. Angelita Habr-Gama: uma contribuição maior do que uma única estratégia

Embora o Watch and Wait seja uma das partes mais conhecidas de seu legado, reduzir a trajetória da Dra. Angelita a essa contribuição seria deixar de reconhecer a amplitude de seu trabalho.

Ela participou da formação e da consolidação da coloproctologia brasileira. Estruturou serviços, difundiu conhecimentos, formou especialistas e contribuiu para que a pesquisa desenvolvida no país ganhasse espaço internacional.

Também ajudou a ampliar a conscientização sobre a prevenção do câncer colorretal, estimulando a importância da informação, do rastreamento e do diagnóstico precoce.

Como professora, ensinou gerações de médicos a combinar técnica, curiosidade científica e compromisso com o paciente.

Já como cirurgiã, mostrou que a excelência não está apenas na capacidade de realizar um procedimento, mas também em reconhecer quando outro caminho pode ser possível.

Como pesquisadora, transformou uma observação clínica em uma pergunta científica que continua movimentando estudos no mundo inteiro.

O legado da Dra. Angelita Habr-Gama permanece em movimento

Uma contribuição médica se torna verdadeiramente transformadora quando continua produzindo perguntas, pesquisas e novas possibilidades mesmo depois de seu primeiro resultado.

Foi isso que aconteceu com o trabalho da Dra. Angelita.

A estratégia de preservação do reto continua sendo estudada e aprimorada. Os critérios de seleção dos pacientes seguem evoluindo. Além disso, novos protocolos investigam maneiras de aumentar as taxas de resposta completa e tornar o tratamento cada vez mais individualizado.

Ao mesmo tempo, as equipes médicas continuam aprendendo com um princípio que atravessou toda a sua trajetória: olhar atentamente para cada paciente antes de decidir.

A Dra. Angelita Habr-Gama ajudou a transformar a coloproctologia porque não enxergava a medicina como um conjunto de respostas imutáveis. Ela compreendia que o conhecimento precisa ser constantemente observado, testado, compartilhado e aperfeiçoado.

Enfim, sua história permanece nas instituições que ajudou a construir, nas equipes que formou, nos estudos que continuam citando seu trabalho e nos pacientes que encontraram novas possibilidades de tratamento.

Portanto, mais do que acompanhar a evolução da coloproctologia, a Dra. Angelita participou ativamente de sua construção.

E é justamente por isso que seu legado continuará presente em cada avanço que unir conhecimento científico, qualidade de vida e cuidado humano.

Conheça a trajetória completa da Dra. Angelita Habr-Gama em nossa página memorial.