Há trajetórias que acompanham a evolução da medicina. Outras ajudam a mudar o seu curso.
A história da Dra. Angelita Habr-Gama pertence ao segundo grupo.
Cirurgiã, pesquisadora, professora e referência mundial em coloproctologia, ela dedicou a vida ao cuidado com os pacientes, à produção de conhecimento e à formação de novos profissionais.
Ao longo de décadas, questionou condutas estabelecidas, rompeu barreiras que pareciam intransponíveis e ajudou a tornar o tratamento do câncer de reto mais humano, individualizado e atento à qualidade de vida.
Seu legado permanece nas pesquisas que transformaram a prática médica, nos profissionais que tiveram o privilégio de aprender com ela e, principalmente, nas histórias de pacientes que puderam encontrar novas possibilidades de tratamento.


Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, em 1933, Angelita Habr-Gama cresceu em São Paulo e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo ainda muito jovem. Formou-se em 1957 e escolheu uma área na qual quase não havia espaço para mulheres. Tornou-se a primeira mulher a fazer residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, iniciando uma trajetória marcada pela competência, pela coragem e pela recusa em aceitar que determinados lugares não poderiam ser ocupados por ela.
Essa postura acompanharia toda a sua vida. Quando decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre as doenças do cólon, do reto e do ânus, buscou formação no St Mark’s Hospital, em Londres, uma das principais referências mundiais da especialidade.
A instituição ainda não aceitava mulheres em seu programa. Angelita insistiu, conquistou a oportunidade e tornou-se a primeira mulher a realizar formação profissional no hospital. Não se tratava apenas de uma conquista pessoal. Cada porta que ela abriu tornou o caminho um pouco mais possível para as mulheres que vieram depois.
A formação da Dra. Angelita esteve sempre ligada à Universidade de São Paulo.
Depois de concluir a graduação em Medicina, especializou-se em cirurgia geral e cirurgia do aparelho digestivo.
Em 1961, realizou aprimoramento em doenças do cólon, reto e ânus no St Mark’s Hospital, em Londres.
Obteve o título de doutora em 1966, com a tese “Motilidade do cólon e reto”, e conquistou a livre-docência em 1972, aprofundando seus estudos sobre o tratamento cirúrgico do câncer de reto.
Na Faculdade de Medicina da USP, construiu uma carreira acadêmica histórica. Foi professora titular, chefe da Disciplina de Coloproctologia, chefe do Departamento de Gastroenterologia e diretora técnica da Divisão de Clínica Cirúrgica do Hospital das Clínicas.
Também criou a Disciplina de Coloproctologia da FMUSP, contribuindo para consolidar a especialidade no ensino, na pesquisa e na assistência médica no Brasil.
Mais tarde, recebeu o título de professora emérita da instituição onde havia iniciado sua formação e à qual dedicou grande parte de sua vida.
Nascimento na Ilha de Marajó, no Pará.
Graduação pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Especialização em cirurgia geral.
Especialização em cirurgia do aparelho digestivo.
Aprimoramento em doenças do cólon, reto e ânus no St Mark’s Hospital, em Londres.
Conclusão do doutorado pela FMUSP.
Conquista da livre-docência.
Atuação como professora, pesquisadora, cirurgiã e formadora de gerações de especialistas.
Professora titular da Disciplina de Coloproctologia da FMUSP.
Recebe o título de Honorária Nacional da Academia Nacional de Medicina.
Reconhecida entre os cientistas mais influentes do mundo.
Primeira mulher e primeira profissional da América Latina a receber a Medalha Bigelow.
Participa da elaboração das diretrizes internacionais da ASCO para o tratamento do câncer de reto localmente avançado.
Despede-se deixando um legado que ultrapassa fronteiras.

Durante grande parte do século XX, a cirurgia era considerada uma etapa praticamente inevitável para pacientes com câncer de reto. A Dra. Angelita Habr-Gama teve a coragem científica de observar algo diferente.
Ao acompanhar pacientes que apresentavam resposta clínica completa após a quimiorradioterapia, ela percebeu que, em situações cuidadosamente selecionadas, poderia ser possível evitar uma cirurgia imediata e preservar o reto.
Assim ganhou reconhecimento internacional a estratégia conhecida como Watch and Wait, ou observar e acompanhar.
A proposta não significava simplesmente deixar de operar. Exigia seleção criteriosa, avaliação especializada e acompanhamento rigoroso. Seu princípio, porém, representava uma mudança profunda: quando fosse oncologicamente seguro, preservar o órgão e a qualidade de vida do paciente também deveria fazer parte do objetivo do tratamento.
A abordagem desenvolvida e difundida por sua equipe influenciou centros médicos de diferentes países, impulsionou novas pesquisas e ajudou a consolidar a preservação de órgãos como uma das grandes discussões da oncologia moderna.
Por trás dessa transformação havia uma forma particular de enxergar a medicina: tratar a doença sem deixar de olhar para a pessoa.
A Dra. Angelita colecionou conquistas que ajudaram a transformar não apenas a coloproctologia, mas também a presença feminina na medicina e na cirurgia.
Primeira mulher residente em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP
Em uma época em que a cirurgia era um espaço predominantemente masculino, conquistou por concurso uma vaga na residência e demonstrou que competência e vocação não poderiam ser limitadas pelo gênero.
Primeira mulher em formação no St Mark’s Hospital
Diante da informação de que o tradicional hospital inglês não aceitava mulheres, ela não desistiu. Sua insistência abriu uma exceção que se tornaria parte da história da instituição e da própria especialidade.
Primeira professora titular de cirurgia da FMUSP
Sua carreira acadêmica rompeu barreiras dentro de uma das mais importantes escolas médicas do país, abrindo espaço para que outras mulheres também pudessem ocupar posições de liderança.
Criadora da Disciplina de Coloproctologia da USP
Seu trabalho contribuiu para estruturar o ensino e a pesquisa da especialidade, formando profissionais que continuaram a expandir o conhecimento produzido no Brasil.
Pioneira na preservação do reto
As pesquisas conduzidas por ela transformaram a discussão sobre o tratamento do câncer de reto e projetaram a medicina brasileira internacionalmente.
Fundadora da Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino
Além de tratar a doença, dedicou-se à conscientização e à prevenção do câncer colorretal, aproximando a informação científica da população.
Presença brasileira nas principais sociedades cirúrgicas do mundo
Foi membro honorária de instituições como a American Surgical Association, a European Surgical Association e o American College of Surgeons, entre outras entidades científicas de reconhecimento internacional.
A dimensão de seu trabalho pode ser percebida tanto nos pacientes atendidos quanto no alcance de sua produção científica.
A Dra. Angelita publicou centenas de trabalhos e artigos, participou de congressos nacionais e internacionais, orientou pesquisadores e ajudou a formar diferentes gerações de cirurgiões e coloproctologistas.
Em 2023, tornou-se a primeira mulher e a primeira profissional latino-americana a receber a Medalha Bigelow.
Criada pela Sociedade de Cirurgia de Boston, a distinção é concedida a profissionais que realizaram contribuições excepcionais para o progresso científico e para o ensino da cirurgia.
O reconhecimento simbolizou algo que seus pacientes, alunos e colegas já sabiam: o trabalho da Dra. Angelita havia ultrapassado fronteiras.
O conhecimento nunca foi, para a Dra. Angelita, algo que deveria permanecer restrito.
Além de pesquisar e operar, ela ensinava. Participava de congressos, recebia médicos em formação, orientava estudos e estimulava novas perguntas.
Sua contribuição não se limita, portanto, ao que descobriu, mas também às pessoas que preparou para continuar descobrindo.
Ao receber o título de Honorária Nacional da Academia Nacional de Medicina, resumiu parte do que dava sentido à sua caminhada:
“Cuidar dos doentes, trabalhar, dividir o que sabemos, são coisas que me enchem de felicidade.”
Essa disposição para compartilhar tornou seu legado ainda maior. A medicina que ela ajudou a construir continua viva no trabalho de cada profissional formado direta ou indiretamente por seus ensinamentos.

Cada fotografia preserva um fragmento de uma vida dedicada à medicina. Nos centros cirúrgicos, nas salas de aula, nos congressos e nos encontros com seus alunos, a Dra. Angelita construiu uma história marcada pelo conhecimento, pela determinação e pelo desejo permanente de cuidar.
Ao longo de sua trajetória, a Dra. Angelita foi retratada por veículos de comunicação, universidades e instituições médicas no Brasil e no exterior.
As reportagens registraram seus pioneirismos, a transformação do tratamento do câncer de reto, sua presença entre os cientistas mais influentes do mundo, a conquista da Medalha Bigelow e sua atuação incansável mesmo depois de enfrentar desafios pessoais de saúde.
A morte encerra uma presença, mas não encerra uma contribuição.
O trabalho da Dra. Angelita Habr-Gama permanece nos protocolos que ajudou a transformar, nas pesquisas que continuam sendo desenvolvidas, nas mulheres que encontraram mais espaço na cirurgia, nos profissionais que aprenderam com ela e nos pacientes que puderam viver com mais possibilidades.
Sua história lembra que a medicina avança quando alguém tem conhecimento para questionar, coragem para propor e sensibilidade para compreender que cada decisão clínica alcança uma vida inteira.
A Dra. Angelita não apenas acompanhou as mudanças da medicina. Ela foi uma das pessoas que as tornaram possíveis.
